Estou chovendo no molhado, eu sei... Mas por vezes eu acabo exercitando o óbvio. Vamos lá:
A diferença básica entre os quadrinhos americanos e europeus está na forma que os povos desses continentes encaram a arte seqüencial.
Nos EUA os quadrinhos ainda são vistos sob a lente de produtos para crianças e isso influencia toda a produção do gênero. Os seguidores de quadrinhos acima de certa idade são considerados nerds acerebrados. Lojas específicas de HQs são ambientes que pais não gostam e, por vezes, não permitem que seus filhos pequenos freqüentem, quebrando a corrente que poderia revitalizar o público consumidor em seu início.
Na Europa as HQs desfrutam de um prestígio completamente adverso; são consideradas arte e as produções gozam de um qualidade e respeitabilidade que não são freqüentes nas produções americanas.
Entendam, eu adoro os comics americanos; consumo grande quantidade deles mensalmente e certamente não gosto tanto de quadrinhos europeus, pelo menos não da maior parte, reservando minhas fichas para adquirir materiais como Blueberry, Metabarões e Incal. Mas é inegável que uma mudança na forma de encarar a produção de HQs americanos é essencial para o futuro da indústria.
O ponto é que essa diferenciação na forma de encarar os quadrinhos, não são exclusivas a essa mídia. A própria ficção científica em seus primórdios sofreu distorções na forma em que foi analisada. Enquanto nomes como Isaac Asimov sofreram para comprovar que um livro como Fundação não tem a mesma base criativa de um Flash Gordon (onde a fonte científica é muito inferior), pessoas como Huxley não tiveram que enfrentar os mesmos percalços, simplesmente pela natureza da mentalidade de seu público imediato.
Sou um fanático inveterado pelo material de HQs com base criativa de pulps como Flash Gordon, de Alex Raymond, bem como dos maravilhosos livros de Asimov, mas tenho o discernimento de diferenciar a profundidade e bases destas obras totalmente divergentes.
Os americanos não parecem ter essa capacidade em sua maioria e entendem que todo material de FC é para nerds que vão ao seu local de trabalho usando orelhas de Spock, não sendo capazes de entender que o produto em si não é reflexo de fãs exacerbados ou que HQ não se resume em produto para crianças e velhos nerds com restos de comida manchados em suas camisetas.
O que me deixa cabreiro é que esta situação é a base da sociedade americana - existem ilhas de criatividade cerebral como em NY ou Los Angeles, mas na maioria as pessoas tem visão estreita estilo Bush-Texas-USA.
Basta analisar mudanças em certos seriados de TV americanos que, mesmo ao iniciarem com ótima qualidade, com o tempo (se sobreviverem) acabam se modificando para adequar ao gosto da massa (espero que o seriado Galactica não seja vítima dessa situação ou acabe como muitas séries de Jornada nas Estrelas, onde alguns episódios bons são imersos em dezenas de outros com histórias insossas).
O mais estranho é que um povo culturalmente limitado é (através de livros, seriados de TV e filmes) o maior exportador de sua cultura para o mundo.