Dizem que "se você não leu X (normalmente Shakespeare) no original, você não leu Shakespeare".
Em princípio sempre fui muito cínico com minhas leituras para levar a sério esta afirmação.
Explico: para mim a trama, a idéia, o desenrolar do plot sempre foram mais importantes que a própria prosa escrita. Claro que dou valor a uma boa tradução e ainda mais a um bom texto original. Sendo um tradutor amador sei que é importante para a qualidade da obra. Um Zé Mane traduzindo Shakespeare transforma o bardo inglês em um folhetim sindicalista.
Mas em resumo, a idéia da história sempre me chamou a atenção mais do que o texto em si. Essa é uma das razões pelas quais adoro as histórias de Isaac Asimov e Alan Moore. A criatividade em seus contos/livros/HQs salta aos olhos. E posso dizer que em ambos os casos já os li no original em inglês, mas por mais que domine a língua saxônica ela não é minha língua natural.
Dito isso, tenho mais um ponto a clarear antes de chegar a meu objetivo.
Sou um exilado na Bahia...
Mais uma vez deixem-me explicar: quando eu tinha quatro anos de idade minha família se mudou do Rio de Janeiro para a Bahia, inicialmente Ilhéus e somente depois de cinco anos para Salvador.
A Bahia é muito bonita (aprazível pode ser uma palavra pouco utilizada mas acredito ser a melhor para ilustrar essa terra). Mas não sendo eu um filho do carnaval baiano e da música axé me sinto um tanto quanto deslocado. Quando era mais novo essa sensação era muito maior, principalmente por ter saído do Rio para uma cidade do interior. Não havia Lojas Americanas com seus brinquedos e cachorros quente, não havia os sanduíches do Bob´s (esses só chegaram por aqui há uns dez anos, mais ou menos), não havia Fanta Uva ou mesmo pipoqueiros que vendessem pipoca doce, somente baianas paramentadas que vendiam um tal de acarajé... Meu mundo caiu.
Por isso, todas as férias em que era possível eu fugia para a casa de meus avós em Copacabana...
E minhas lembranças do Rio nesta época era de uma cidade Ziraldina.
Ziraldina no sentido da presença do escritor e cartunista Ziraldo ser muito presente por lá. Vários cartuns nos jornais, revistas do Pererê - já em republicações da editora Abril -nas bancas (que também não eram grande coisa em Ilhéus nos meados dos anos setenta), a coruja símbolo das óticas Brasil, O Pasquim em Ipanema, a Supermãe publicada em algumas revistas, murais, pichações emulando o artista, tudo muito Ziraldino. Claro que só fui reconhecer o traço e ligar de quem se tratava muitos anos depois.
Esclarecendo tal situação, posso chegar ao ponto destas linhas(finalmente dizem os possíveis e estafados leitores): eu recentemente comprei um livro de Ziraldo Alves Pinto, um livro adulto daquele que nos últimos anos se concentrou em sua faceta de escritor infantil.
O livro se chama O Aspite (Assessor de Palpite, oras, em bom e coerente ziraldês). Se trata de uma coletânea das crônicas do autor para um jornal mineiro.
O que posso dizer ... Ler Ziraldo em sua língua original é realmente LER Ziraldo. Finalmente me rendi ao ditado que usei para iniciar esse texto. O estilo quase que evoca sua presença, como se estivesse falando de algum lugar por perto, pelo menos para aqueles que já ouviram alguma declaração ou entrevista do escritor na TV.
Normalmente se um escritor escreve da forma como fala não é um ponto positivo. Intui-se que ele não tem uma boa dialética, mas esse definitivamente NÃO é o caso de Ziraldo; ele apenas usa da melhor forma da prosa para se colocar em uma posição próxima e familiar do leitor. O livro é delicioso (como diriam os gourmets literários). Uma obra que faz jus ao "Escritor Infantil que é mais Infantil do que Escritor", em suas próprias palavras.
O que posso dizer? Por algum tempo o livro me transportou até a mágica época de minha infância, em que passava as férias com meus avós na capital do Rio de Janeiro, que para mim – antes de ser Maravilhosa como diz a letra da canção – era uma cidade Ziraldina.